domingo, 22 de janeiro de 2012

Margaridas


Eu estava na varanda quando Mary Ann veio me ver... sorrindo como sempre em seu vestido primaveril. Estava linda. Tirou uma flor de seu cabelo dourado e ajeitou atrás de minha orelha.
- É um presente meu para você.
Sorri, levando as mãos à cabeça para sentir as petalas macias da margarida.
- Não precisava!
Ela apertou as mãozinhas brancas e enlaçou meu pescoço para beijar meu rosto.
- Quer andar de bicicleta? - convidei.
- Não posso. Não sei onde meu pai guardou...
- Não está na garagem?
- Papai foi embora...
Lamentei. Mas logo o cheiro de biscoito e café quentinho na tarde nublada me fez querer entrar e me servir das guloseimas lá dentro.
- Mary Ann... não está com fome? Estão fazendo biscoitos...
- Não tenho fome!
Ouvi minha mãe chamar e levantei-me do balouço afim de levar minha amiga até a cozinha. Mas minha mãe já estava a caminho. Seus passos se arrastavam apressados no corredor.
- Tenho de ir, Sarah. Adeus!
- Mary Ann, não!
Antes que pudesse vê-la sair, a mão pesada da mãe segurou-me pelo braço e me sacudiu com força. Gritei e nada pude fazer para impedir que ela me arrastasse para dentro.
- Sarah... filha! - trancou a porta e se ajoelhou diante de mim - Não faça mais isso!
- O que você fez para assustar Mary Ann? Bruxa!
O xingamento a fez calar. Pensei naquele momento que teria o maior castigo que ela já me dera. Engano meu... Ela me abraçou, a face banhada em lágrimas, como uma criança de minha idade faria depois de uma surra.
- Filha... amanhã iremos ao psicólogo...
- Não pode me mandar para lá... é horrível...
- Mary Ann morreu! Há dois meses...
Calei... Um flashback de imagens perdidas voltou a minha mente. A bicicleta retorcida no asfalto, seu vestido manchado em seu sangue. Gritos na rua. Lembro de ter chorado até desmaiar. O seu caixão branquinho. As flores que ela gostava. Ela nunca esteve comigo. Era tudo um desejo meu, que ela estivesse sempre comigo. Abracei minha mãe o mais forte que pude e ela decidiu levar-me no quarto.
A margarida de meu cabelo caiu no chão. E foi levada pelo vento que entrou pela varanda.

Um comentário:

Fєrnαndєz ♠♠ disse...

Lembro da repercussão desse conto no Terza Rima. hahahah'

Um conto curto, envolvente e com um desfecho de errepiar.
O personagem teve que aceitar a morte de uma maneira inesperada.

Muito bom.