quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Epifânia "EGO"


Não tenho tempo para avaria
Meus danos de memória talvez sejam permanentes
Não sofro dos males de insones noite afora
Dispersos com o mundo, com o abstrato, com a intolerância
Mas quiçá eu tolere mais que os outros
Que defronte mais meus medos...
Não o inatingível em eterna fuga.
 
Não tenho tempo para pandemias,
As chagas em mim, em sangria
Curam, e flagelam em progressiva rotatória
E não tenho tempo para o ódio
A não ser o meu inferno pessoal, ardendo em chamas.

Critiquem o mundo, porém assim não mudarão
As faces continuam a sofrer, perante os gritos
Não há razão que desentupa vis ouvidos...
Não há vigor por trás do poder, senão ganância...

Eu não busco a quem mudar, senão eu mesma
E na inveja não mais creio... Eu nada posso
Conquistar senão meu íntimo castelo
Minhas guerras são diárias – sem inimigos.

Não tenho tempo para sistemáticas
Formulários, quitações, formalidades
Não torço pelo fim da humanidade
Mas não me importa o caos, se estou sensata
Ao recobrar a consciência de momentos

Não creio na inveja, ela difere
Quem reza mais do que quem peca menos
Não quero rotular-me, e não ostento
Quaisquer dos benefícios de um nobre.
Não creio, e se não creio, logo não existe
Se opinares sobre a lógica, são não és.

Não sou um homem bom, não quero sê-lo
Mas nem, portanto, lançarei ao chão, maldade.
Não quero ser mais belo, ou mais temível
Razão da euforia dos ímpares
Não quero ser exemplo, ou majestade
Mas clamar, por si clamar, resguardo o nulo
Guerrear, por guerrear, me faço neutro
E dentre a selva dos que brigam, eu sou silêncio.

Não quero para as partes dar intriga,
Não quero para aos ásperos, revolta
Mas não compro o que ofertas, só porque opinas...
Eu tenho a vida, meus dilemas... tenho amor...

Que mais importa?


Paradoxal



Por não te ver
e por que não o queres
dentro de mim eu quero
e o desejo é tão cruel...

Por não teres afinco,
pretensões maledicentes
por seres meigo e inocente
eu sigo a prever o desejo

Retardo... retardas as falas
que se jogam em nuvens calmas
de enervante mistério

que nos leva ao complexo
ato de fazer amor com os pensamentos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Veneno


Brindemos amada, brindemos
a tola sorte com água
e não questione meus intentos.
Quisera valsa, depois mortalha
a vida ao fio da navalha
e agora chora seus momentos.

Eu nada tenho que me tires
tampouco peço: me socorra
Impede ao acaso que corram os rios
enquanto desejas que eu morra?
Já te serves da perjúria...
Eu sorvo o vinho barato
e na abstinência de falas
me deixe viver sossegado.

Esqueça o mundo, dê-se um tempo
há vestígios além da estrada
Meus versos destinam-se aos ventos
desfiladeiros são a casa
o lar que o poeta assombra
o mesmo que abarca o relento...

Brindemos amada, brindemos
ainda que juntas morramos
Brindemos com mel e veneno!

domingo, 12 de agosto de 2012

Anéis de Saturno


Quero com ondas brincar
- não com as ondas do mar...
Mas com estas, de teu cabelo
de teus cachos a me embalar.

São prisões os teus braços
que tem no peito um valioso achado
no qual eu deito o ouvido
- e bailo com o coração.
Dedilho teus lábios qual lira
ah, essa voz que nunca desafina
fugindo das brancas e mansas maçãs...

Descreve-me este beijo que despe
e o apelos nos negros crescem...
Crescem qual escuro de nosso quarto,
qual as asas de um morcego!

Não tenhas medo... Eu te beijo...
Beijo e meus pés suavemente
da terra de desprendem
- Subo aos céus, sobe a temperatura
Vira-me do avesso
Desvenda-me qual gravura
qual pintura de Picasso
- Sou tu, no amor, e na guerra
(Meu Adão, sou tua doce Eva)...

Porque só tu tentas e por fim,
me compreendes...
mas logo desistes porque
não podes compreender o que compreendes!

E é tu... Tu -  o único
que vejo e o único que nunca foi meu,
e que desejo, mesmo sendo meu.
E ainda que não fosses sempre meu
juro que serias como agora.

Tu me pegas pelas mãos e me convidas
a fugir sem demoras, a um lugar só nosso
onde nem nós mesmos saibamos
que nos amamos loucamente...

(Mas toda rua tem marca da gente!)

Oh, este amor inocente e selvagem
caliente e ideal
telepático e alérgico
aos execessos mal-do-século
- estes que se atiram de sacadas razas...

Eis que me lembro
pois nunca dissestes: "Eu te amo!"
Pois és real...
A não ser
que estou dormindo e não sei...